Histórico da Escolinha do Morro

Expositor: 
Rogério Pereira

No final do ano de 1976, passando pela frente da Soc. Espírita Ramiro D'Ávila e Sopa do Pobre, resolvemos descer do ônibus e perguntar se aceitavam sócios. Qual não foi nossa surpresa quando uma doce senhora que mais tarde passou a grande amiga Nair, nos perguntou de sopetão, certamente inspirada pelos amigos espirituais:

- Trabalhas com crianças?

Nunca tínhamos trabalhado.

- Não gostarias de trabalhar?

- Como?

- Atendendo as crianças carentes que vem tomar sopa.

Aceitamos, e todos os dias, ao meio dia, ali estávamos, responsáveis pela mesa das crianças, onde fazíamos a prece e atendíamos carinhosamente.

Ficamos então sabendo que a Federação Espírita do Rio Grande do Sul, possuía planos de atividades para as crianças, e para lá fomos num sábado à tarde.

Conhecemos a querida Cecília Rocha e contagiados por seu entusiasmo de todos os sábados,abrimos no ano de 1977 a Escolinha de Evangelização do Ramiro D'Ávila, aos domingos pela manhã.

Jogos, brincadeiras, pecinhas de teatro, musiquinhas e todas as maravilhas da Evangelização.

Mas notamos no decorrer do ano que a freqüência era constantemente alternada, vinham uns num domingo, outros noutros para retornar somente mais adiante, e problema sempre o mesmo: a distância.

Foi assim que no ano de 1978 resolvemos, agora junto com a colega Lucia Vargas Guimarães, descobrir de onde eles vinham, e localizamos a Vila Dona Maria.

Para lá fomos ver se encontrávamos nossos "pitocos".

A Vila era pequena, todas as casas sem exceção, de restos de madeiras, não havia ainda uma só casa de tijolos.

A fome e a miséria eram as companheiras do dia a dia.

Como dar aulinha?

Na rua. Achamos um pequeno espaço de grama, reunimos nossas crianças, demos as mãos, fizemos uma prece, numa linda manha de sol, e com a brisa a abençoar nossos cabelos. Estávamos fundando a "Escolinha".

Todos os domingos lá estávamos, com garrafas térmicas de cinco litros cheias de leite com chocolate bem quentinho e sanduiches de chimia que nos roubou muitas noites de sábado lambuzados, preparando.

Gincanas, mágicas, pecinhas de teatro ao ar livre, faziam aquelas horas se tornarem mágicas para aquelas criancinhas assustadas com a cidade grande, pois na sua grande maioria a vila era fruto do êxodo rural.

Iniciamos então no mesmo ano, com o objetivo de nos aproximar mais das famílias a Caravana do Evangelho.

Contávamos agora com mais alguns companheiros: Amilton Pereira da Silva, Alexandre, Ricardo e Sônia Paim.

O trabalho foi crescendo, dividimos em ciclos, e para dar mais dinâmica e beleza cada ciclo ganhou uma cor: jardim- amarelo; I ciclo- verde; II ciclo - laranja; III ciclo - vinho ; pré-juventude - azul.

Era lindo de ver. Cada ciclo possui um bastão com sua bandeira e cada criança ostentava feliz e orgulhosa, com os olhinhos brilhando, uma faixa no braço com a cor de seu ciclo. E quem olha-se de cima via aqueles pequenos grupos reunidos cada um da sua cor, espalhados pelo campo, falando de Jesus.

Mas o frio e a chuva muitas vezes castigavam os pecurruchos, nos pegando de surpresa.

Resolvemos então que necessitávamos de uma "sede". Mas de que jeito?

Se na vila tudo era barraco de madeira nossa sede também poderia ser. Adquirimos então, caibros de 5x7, compensados de 6mm tão finos que não se podia encostar muito neles, e telhas de papelão mergulhadas no piche.

Soalho, pra que? Era o barro vermelho mesmo, e por ter sido construído numa região inclinada, nos dias de chuva forte a criançada tinha que botar as perninhas para cima dos bancos para fugir da chuva barrenta que rolava pelo chão.

E por falar em construção...Há a construção!!!

Aguardávamos ansiosos pelo material num sábado pela manhã. Placas de compensado finíssimas que de maneira nenhuma poderiam molhar antes de serem bem pintadas, se não entortariam e desfolhariam todinhas.

E o caminhão encosta para largar o material debaixo de uma chuva torrencial.

Alguns moradores, inspirados pelo alto, perceberam nossa cara de aflição, olhando encharcados para aquele caminhão e dizendo que não tinha onde largar o material, era ali mesmo, na rua.

Vários moradores se cotizaram e cada um "abrigou" como pode algumas placas.

Era necessário começar com urgência.

E foi inesquecível aquele sábado de chuva em que tentávamos com toda a força possível mergulhar a picareta no infinitamente duro chão de terra vermelha.

Chuva, barro e bolhas nas mãos nos levaram até a noite cavando sem parar, pois tínhamos que aprontar.

Depois de alguns dias de serões, finalmente estava de pé.

Bancos rústicos de madeira receberão uma pintura prateada e no meio uma faixa larga com a cor do ciclo.

Na sede nos reuníamos e depois cada ciclo pegava os seus bancos, bandeira e faixas, um carrinho de super mercado com as térmicas e o lanche.

No final da manhã os bancos eram acorrentados no pátio da casa do "João Francisco" o "Dídio" que mais tarde com 11 anos de idade foi morto por engano num tiroteio. Nada ficava na Escolinha.

Certa manhã chegamos e a criançada foi logo gritando:

- Fessor, Fessor... roubaram a Escolinha.

Sorrimos, não havia nada para roubar dentro da Escolinha.

Descemos lá embaixo, abrimos a porta e.... só haviam duas paredes, as outras duas haviam sido roubadas. Literalmente haviam roubado a Escolinha.

Já no ano de 79 resolvemos iniciar um tímido trabalho de palestrinha e em nossa simplicidade convidamos para a palestra inaugural o Irmão Maurice Herbet Jones, então presidente da Fergs, para falar para pouco mais de seis pessoas. Mas só quem esteve lá naquele dia pode sentir os "anjos" que lá estavam...

Mais uma ventania, e chegamos para encontrar a Escolinha sem nenhuma telha. Reconstrução, recomeçar...

A medida que o tempo castigava aquelas finas paredes, a Escolinha foi se desmanchando, e achou-se por bem, premiados por uma abnegada companheira que arcou com as despesas, adquirir um barraco de madeira, no local onde hoje é a atual sede.

Barraco sobre palafitas que o vento frio soprava por frestas de todos os lados fazendo as telhas de zinco baterem sem sossego.

E quando era a hora da música e todas as crianças, mais de 100 apinhadas numa casinha, batiam mãos e pés e todo o barraco balançava. Nos olhávamos, olhávamos para o alto e dizíamos de coração: - Segura só mais um pouquinho Jesus.

Ali ficamos vários anos. Inclusive expandindo a escolinha para mais um barraco nos fundos que também funcionou como albergue e mais tarde ficou para a comunidade.

Lembramos a primeira Caravana do Natal.

Enchemos dois carros de presentes. Fantasiamos um Papai Noel e chegamos na Vila de surpresa. Em menos de dez segundos tinha tanta criança pulando em cima dos carros que tivemos que deixar para o outro dia - que susto. Mas depois mais organizados conseguimos distribuir com harmonia.

Na década de 80 inúmeras atividades foram introduzidas. O esporte com 4 times de futebol com uniformes completos, camiseta, calção, alpargata.... se pudéssemos filmar aqueles rostinhos radiantes vestidos para cada partida.

Surge o trabalho do artesanato aos sábados à tarde onde inúmeras mãezinhas aprenderam a bordar e tricotar num estafante trabalho de algumas companheiras no levar e trazer matérias para a Escolinha.

Aulas reforço: que eram aulas particulares para quem desejasse. E quem trouxesse o boletim com notas legais levava um conjunto escolar completo, lápis borracha, caderno, régua, lápis de cor...

Os anos se passaram, e gostaríamos de citar todos os nomes dos inúmeros companheiros que lá colaboraram e hoje desfilam em nossa memória.

Muitas crianças daquele tempo hoje, adultas, levam agora seus filhinhos nas aulinhas.

E a Escolinha continua a ser, a luz dos nossos corações.

Muito Obrigado Jesus!



Data da tribuna: 
27/04/2001

Que linda história! Muito

Que linda história! Muito emocionante. Bem aventurados vocês que já estão devotados a praticar o bem.
É tão difícil lutar contra as tendências e desejos naturais do ser humano.
Os medíocres, nos quais me incluo, batalham constantemente contra si mesmos a fim de não praticar o mal.
Sonho com novos tempos, em que tudo será por amor e bondade, mas minha alma não está sublimada ao ponto da abnegação dos caprichos terrenos.
Mas tenho fé, que um dia todos chegaremos lá!
Parabéns a vocês que servem de exemplo e reflexão para mim e muitos outros, mas não se sintam envaidecidos, simplesmente agradeçam por estarem no caminho do bem, na única trilha certa.

Comentário sobre Escolinha do Morro

Amigos fiquei encantada com sua historia, isto sim que é perseverança no bem.
É tão bom quando fazemos as coisas com verdadeiro Amor e abnegação, que realmente toda cúpula Celestial ajuda
Ouvindo historias como a de vcs. que encontro mais força para não desistir de meus propositos.
Trabalhamos com 90 crianças do bairro, somos 3 Evangelizadores, casa alugada, fazemos bazares p/cumprir os compromissos. Mas depois de ouvir vcs. me sinto a pessoa mais sortuda do mundo.
São exemplos com de vcs. que nos dão força para seguir mais além.
PARABÉNS! Amigos! - Nunca desistam, semei sempre o bem, porque Jesus, estará sempre a lhes guiar.
Um abraço fraterno.

Escolinha do Morro

Queridos irmãos.
Impossível não se mocionar com a história da Escolinha! Quanta luz, quanto amparo do plano espiritual e também quanto amor e dedicação desses irmãos seres de luz que iniciaram esse trabalho e que o mantêm até os dias de hoje.

historia de la escuela del morro

Esta es una historia muy motivadora, llena de alegria, sacrificio y perseverancia.

muy agredecido

jorgedelcristo

Escolinha do Morro

Impossível não me emocionar ao ver este relato!
Eu tinha 14 anos quando fui a primeira vez ao morro. Ao chegar lá, uma menininha me trouxe uma rosa enorme e me chamou de professora. Naquele momento eu soube qual era minha missão! Trabalhei lá durante muitos anos, aprendi ensinando, mais aprendi que ensinei! Tornei-me professora e não tem um dia do professor que eu não lembre daquela rosa que ganhei há 30 anos!
A escolinha do morro fez parte da minha vida, faz parte da minha história e até hoje, em minhas lembranças, me ensina a ser melhor!